domingo, 1 de agosto de 2021

 Recomeçar

 

 


 

Quero dar mais tempo,
Pra cuidar da terra,
Cuidar de mim.
 
Preciso parar pra buscar esse tempo de novo.
Não quero me deixar envolver no fluxo acelerado,
Alucinante do mundo capitalista.

Eu sei quem sou:
Há tempos sou essa menina/mulher jardineira.
Deixo um pouco a velha rabugenta (que também faz parte),
E inicio um novo ciclo,
Consciente de quem sou e do que quero da e para a vida.

Vou dar o ritmo ao meu tempo.
Não me deixar afogar, apagar, secar,
Pelas demandas do mundo,
Nem por aquelas criadas por mim mesma.

Eu sou um ser vibrante,
Tenho em mim o comando dos fluxos das marés que me perpassam.

Praia do Moçambique, 1o de agosto de 2021. 
Viva Pachamama!

 
 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

O resto de mim

 

 

Dos poucos vestígios que restaram daquelas que amei
E ainda amo
Quero as melhores lembranças
Bons momentos
Madrugadas cheias de esperança.
 
Muitas vezes na vida
Eu não soube amar
A correria do trabalho 
O despertar do toque do relógio...
A racionalidade incontida.
 
Permita-me o tempo compreensão
Permita-me a vida eternidade,
Quem sabe ao menos alguma partícula do meu ser.
 
Originalmente escrito em 17 de dezembro de 2012.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

A terra e o vento

 

 

Criatura que permanece observando o dia 
E caminha
Com fendas produzidas pela terra
Criatura humana de pés descalços
Inchados da areia
O dedo do pé esquerdo sangrando
Pés sujos de lama e vento
E canta a dentro em cada canto.

Cria criatura
De mente branda
De louco
Cria tua loucura

Criatura que caminha na areia
Sempre de pés descalços
Descaso é o que tens
Descaso da razão

Caminha criatura
Cria
Não tortura
Caminha distante
De olhos largos no caminho

Canta breve criatura
Cria teu ser
Tu que és deus, tu que és vento, tu que és terra
Da terra te desfaz, e te faz sucessivamente
E constante cria a criatura
Criando realidades
Refletindo no espelho
Pingando de água do mar

Criatura pede canto escuro
E conta contos noite à dentro
Despede a luz do sol
Despede a realidade
É de terra e é de vento

Escrito na cidade de Pelotas por volta do ano 2000.
 

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

A vida é caminho

 

Para Sofia Gasparotto
 
A vida é caminho
Me disse uma amiga
Também penso assim.
 
A vida é caminho que vem, que vai,
Que bifurca
Às vezes faz a curva.
A vida é caminho que sobe,
Desce, 
Mas não para.
 
Podemos caminhar devagar 
E saber onde estamos pisando
Ou rápido demais
E levar tudo no atropelo.
 
Podemos ter consciência de que estamos caminhando
Ou simplesmente ser empurrados pelo curso do tempo.
Podemos decidir por onde e como caminhar.
Ou podemos deixar que decidam por nós
Com o risco de um dia abrirmos os olhos 
E tomarmos um susto com o destino alcançado.
Mas sempre é tempo de acordar
E tomar rumo próprio. 

Em 04 de setembro de 2019.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Mate


 

 

Somente o silêncio

Este amargo companheiro

Das madrugadas vazias

Das noites mal dormidas


Pra quebrar o silêncio

Apenas o canto do grilo

E de menos amargo em si

O mate das belas manhãs serenas de quase outono. 



Madrugada de 18 de março de 2012

À espera da manhã.


segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Mulher

 
 
Sou mulher,
Trabalhadora.
E não me canso de lutar!

Sou mulher, 
Sangue vermelho, 
Que muda com a lua.

Sou mulher,
Corpo, mente, 
E espírito.

domingo, 23 de agosto de 2020

Singela resposta ao poema 15

 

 

Eu gosto quando falas
Quando expressas com palavras a verdade do teu coração 
Gosto quando me olhas
Com desejo e carinho.
Gosto também dos teus silêncios,
dos teus sorrisos.
Não quero calar tua voz
Não te quero distante
Mas vivendo no presente
Aprendendo com a dor
E buscando a alegria das coisas simples.
Te quero livre
Para que juntos ou sozinhos
Possamos cultivar o amor e a amizade.
Quero que fique,
Mas só e por quanto tempo quiser. 
Rio Vermelho, 08 de junho de 2018.

domingo, 9 de agosto de 2020

Estados da alma


Ainda há dias em que a vontade de desaparecer persiste,
E tudo o que sou,
Ou penso que sou,
Se dissolve no ar.

Há dias tão imprecisos,
Inconstantes,
Lentos,
Ou rápidos demais.

A oscilação das minhas próprias decisões me atordoa.
A constante metamorfose em que vivo me deixa tonta às vezes.

Como ter certeza de algo?
Como escolher um caminho a seguir em uma sociedade tão insana quanto a nossa?
Como manter o equilíbrio diante de tanta insensatez?

Mas a vida segue,
E se a metamorfose é permanente,
Também o aprendizado é constante.

Na minha casa, Porto Alegre, dezembro de 2011.

PS: Em momentos de dor intensa ou desespero devemos sempre lembrar que esses estados são passageiros.


Me fortalecer só








Estar só
Embriagada de mim mesma
Será um prenúncio da solidão eterna
à qual a alma talvez esteja predestinada?

Me enfrentar só
Suportar o vazio
Que não é vazio
Porque o preencho com palavras
Sentimentos confusos
ideias delirantes
Um amor inventado
Em meio à solitude destes dias tão insanos.

Me fortalecer só
Permanecer lúcida
Em meio ao caos deste mundo
Que mais parece uma ficção científica dos anos 70.

Sobreviver só
Tentar viver nestes dias
Lembrar que ainda respiro
E que sou capaz de criar
Uma realidade menos atroz
Do que aquela que me é imposta
Pelo mundo dos homens.

Ouvindo e inspirada pelo rap "só" do Kamau,
Em 23 de maio de 2020.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O retorno do tempo presente


De repente faltou luz e a gente se viu no silêncio. Ou permanecíamos com ele, ou conversávamos. Fazia muito tempo que as palavras eram poucas entre a gente. A televisão tava sempre ligada, as mensagens nas redes sociais não paravam de chegar. O dia passava num piscar de olhos e a noite era feita de luzes artificiais.

A gente não sabia, não suportava o silêncio, então eu lhe pedi que me contasse uma história. 
Ela disse: - Hã, como assim contar uma história, uma história real, uma história inventada? 
- Ah tanto faz, eu disse, mas me conta uma história bonita, faz tanto tempo que não ouço uma história bonita.

- Poxa, e agora! Vou ter que pensar. Deixa ver... Tá bom, então vou contar uma história sobre um futuro improvável, no qual haja amor.

"Certo dia acabou a energia elétrica das cidades todas, um colapso inexplicável, parecia que a energia tinha se recusado a circular. As pessoas tiveram que parar, se olhar, se ouvir, se tocar para aquecer os corpos. Os técnicos não conseguiam entender, parecia que as leis da física haviam mudado .

Nos primeiros dias a gente ficou em casa, parecia que voltar a fazer sexo era a melhor alternativa pra passar o tempo. Logo a gente percebeu que precisava interagir com outras pessoas. Em algumas semanas se formaram vários grupos no bairro. Grupos de dança, de teatro, de música, de jogos os mais variados. A gente aproveitava muito as noites de lua cheia, e nas de lua escura se recolhia um pouco ou fazia fogueira. Voltei a me sentir viva, exuberante e íntegra em corpo e espírito. Quando olhei pra atrás não entendi como podíamos viver aquela vida tão vazia de sentido."

Quando ela terminou de falar meu rosto tava tomado de lágrimas, ela percebeu e me deu um beijo longo e delicioso como dos primeiros que trocamos há muito tempo passado.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Luto



Não te esqueças menina
Que a morte está perto
Sim, tens o vinho
E a lua está no céu
Bela, como sempre bela
Porém, a morte está ao redor.

Mas, será que adianta ficar triste?
Lembro de quando era pequena e morreu minha bisavó
Quando voltamos do enterro, já na casa dos meus avós, eu queria ouvir música e dançar
Os adultos não deixaram
Eu não entendi muito bem.

Agora dizem que temos que fazer luto.
Sim, é muito triste o que se passa
Mas eu me pergunto: não é triste a sociedade em que vivemos?
Não é triste que tantos jovens negros morram nas periferias brasileiras diariamente?
Não é triste que as mulheres seja estupradas e assassinadas por serem mulheres?
Não são tristes tantas guerras estúpidas?

A doença é triste,
A morte é triste,
Porém, mais triste é sociedade na qual vivemos a vida inteira.
Mais do que fazer luto,
Precisamos buscar força na pulsão de vida.
Pra que depois dessa doença a vida passe a ter mais valor.

06 de maio de 2020.

PS: um pouco mais de dois meses após esse escrito, a necessidade de luto é imensa, mas a alegria não pode estar olvidada, pois necessitamos de força e saúde pra seguir lutando. Esse foi meu único vinho no isolamento, agora me fazem companhia os chás de camomila e erva-de-são-joão. O número de mortos é muito alto, e quem mais sofre, como sempre, são os pobres, os negros e as populações indígenas. A palavra genocídio tem sido usada pra expressar o que se passa no Brasil neste momento.

domingo, 12 de julho de 2020

Não te cale








Sei que vai ter algumas vezes em que tua voz não será ouvida. 
Ela é bela e suave, 
E, por isso mesmo, alguns julgarão que não tem valor. 
Vai ser difícil.
Tu vai ter consciência do que disse, 
E vai sentir que as palavras não tiveram o efeito que tu queria. 
Em algum momento vão te dizer ou sugerir que a tua forma de falar e se portar está errada, 
Que tens que fazer como fazem os homens. 
Então, tu vai aceitar, vai copiar sua arrogância, sua crítica feroz, 
Porque tu percebe que são essas as palavras que são ouvidas no mundo. 
Talvez um dia tu chegue bem alto usando essas palavras, 
Então, talvez, olhe pra ti mesma com desprezo. 
É melhor, por mais difícil que isso seja, seguir agindo como mulher, falando com tua própria voz. Ninguém vai te dar voz, tu a tens, e ela é linda.

Inverno de 2020.

Dedico esse poema pra Piqui, querida amiga que me trouxe de volta ao mundo da poesia. Me inspirei num poema que ela fez, mas estou falando pra mim mesma, o que está dito, diz respeito à coisas que já vivi.

Fotografia de 13 de outubro de 2023.

Juntas

Para Tatiara Pinto


Eu sempre estarei aqui irmã
Mesmo que nossos caminhos se afastem
E não reconheçamos nossos corpos
Sei que vou te reconhecer pelo olhar sereno,
Sorriso farto.

E se teus olhos estiverem aflitos
Que possas encontrar em mim um alento
E perceber
Que nem tudo está perdido.

Somos filhas de Pachamama
Somos guerreiras
Mulheres fortes e delicadas
Lobas selvagens perdidas no caos urbano

Sei também que posso contar contigo
Como já contei tantas vezes
O universo me trouxe tua presença
E junto com ela o sagrado,
A dança, a música, a poesia,
Simplesmente a beleza.

Que possamos ter saúde e força
Para nadar contra a corrente
E lutar por um mundo mais justo
Em sintonia com a madre tierra e a energia cósmica.

26 de setembro de 2018.

Poema Novo

Quero dizer um poema que não conheço
Que nunca li
Nunca escrevi
Um poema que fale de como podem ser vis os homens
Um poema que cuspa na cara da falsidade
E escancare a baixeza da mentira e da traição

Quero dizer um poema novo
Que fale da raiva
E não somente do amor
Pois a raiva,
Esse sentimento tão desprezado,
Também nos torna fortes
Nos ensina que não podemos suportar tudo sem gritar.

Quero um poema que mude o mundo
Que nos ensine, humanos
A não sermos injustos uns com os outros.
Que torne visível:
A estupidez perversa da sociedade de classes
A ignorância má do racismo
O risível e terrível do sexismo.

Quero dizer um poema que também fale de flores
E de uma nova sociedade que pode surgir
Onde a raiva não será necessária
Pois o amor e a vontade serão livres e verdadeiras.
E a mentira não será dita
Pois corajosos, homens e mulheres não terão necessidade de enganar para obter vantagem.

Quero um poema que fale da vida
Da beleza já quase não percebida
Da natureza da qual somos parte

Este poema também terá que falar do perdão
Pois afinal, toda a mentira, injustiça e traição que há
Não se trata de uma questão individual
Isso, os homens não aprenderam sozinhos
Mas com outros homens e mulheres que assim também o aprenderam.

E sendo assim,
Este poema também falará da cultura
Pra que possamos perceber que nosso modo de vida é só um
Dentre tantos outros possíveis
E que aquilo que, por vezes, consideramos certo
Não é tão certo assim.
Algo que envenena
Que explora
Que busca dominar
Tirar vantagem do trabalho alheio
Não pode ser considerado certo
Simplesmente não é justo.

Setembro de 2018.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Deixar o tempo

No sonho desta noite eu vi o tempo.
Vi as ervas crescerem desordenadamente sobre as construções.
Vi as luzes elétricas se apagarem aos poucos.
Vi a força do apego,
O desejo que tenho de conservar o passado.

Espero ter aprendido que é necessário deixar...
Deixar coisas boas, que não destruam a vida.
Vivemos em um mundo extremamente material,
De consumo e lixo,
Intermediado pela propaganda que programa nossas mentes.

Torna-se fundamental construir um novo mundo,
De amor e bem viver.

São João do Rio Vermelho, 01 de dezembro de 2015.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Antes da lua cheia

Eu sou a brisa que embala o canto sereno na lua cheia,
Sou a chama que não apaga,
Da vida,
Estou viva!
Que cada segundo seja pleno,
Cada instante vivido,
Que tenha vida,
Que seja amor.

Ao dissipar a incerteza,
Busco a beleza constante.
Paz não é possível sem luta,
E força para lutar é o que busco.

Porto Alegre, 03 de junho de 2012.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Repense o Descartes



Repense o Descartes
As coisas não são separadas,
É tudo junto mesmo no Planeta,
E no Universo também!

O pensamento cartesiano é que faz as coisas descartáveis.
É um mundo sem conexão.

Repense o Descartes,
E a ilusão do conhecimento objetivo.
Descartamos comida,
E há gente que não tem o que comer!

Basta de um pensamento tão raso.
Chega de franceses e ingleses do século XVII!
Repense também o Newton e o Locke.

Não me venha com essa de que as terras indígenas não são produtivas,
A sua produtividade está acabando com a nossa vida!
A agricultura indígena produz vida!
O agronegócio produz morte!

E se a questão é o avanço da ciência:
os Tupinambá já estavam bem à frente do tal do Newton.

Você pensa que seu celular é muito moderno?
E de onde veio boa parte dos metais contidos nele?
Do arcaico trabalho escravo infantil moderno!

Vamos transformar essa economia consumista,
Destruidora do Planeta e da Vida!
Basta já dos plásticos,
Basta de indústrias poluidoras.

Não às armas,
Pois é justamente onde se sustenta o Império,
Na guerra sem motivos,
Na destruição e sofrimento dos povos!

Vamos boicotar as indústrias mais lucrativas,
Consumir menos drogas vendidas nas farmácias!
Apoiando a Saúde Pública gratuita,
E o fácil acesso àqueles que necessitam dessa indústria para viver.
Que as pesquisas da área médica e os praticantes da medicina se ocupem mais em mitigar os males humanos,
E menos em ganhar brindes e viagens das indústrias que só visam ao mercado!

Viva aos Povos Indígenas,
Viva aos Quilombolas,
Viva aos camponeses, agricultores agroecológicos, ao MST,
E à todas as que lutam para que da terra se crie vida!

Que a força da vida seja maior que o espírito doentio e destruidor do Capital!

Escrito entre 18 e 21 de outubro de 2016. Com pequenas modificações em 15 de maio de 2024.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Urbano e Rural

Derrubar o Concreto,
Decompor o Asfalto,
Viver no Tempo da Natureza!

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Aroeira

quarta-feira, 16 de março de 2016

Tempo e Tempestade

Deixem-me chorar
Uma tempestade passou por minha casa.
E não foi tempestade,
Nem de vento, nem de gente.
Foi tempestade de humores,
Humanos demais.

Há meses já que sinto a tempestade dentro de mim,
Ela foi me paralisando,
Fazendo a poeira assentar,
As teias de aranha espalharem-se pela casa.

Tem dias que as lágrimas custam a brotar.
Tenho me sentido estranha alguns dias,
Como se fossem feitos só para deixa-los passar,
Deixar que o tempo leve a tempestade embora,
E faça voltar a alegria dos dias calmos.