domingo, 9 de agosto de 2020

Estados da alma


Ainda há dias em que a vontade de desaparecer persiste,
E tudo o que sou,
Ou penso que sou,
Se dissolve no ar.

Há dias tão imprecisos,
Inconstantes,
Lentos,
Ou rápidos demais.

A oscilação das minhas próprias decisões me atordoa.
A constante metamorfose em que vivo me deixa tonta às vezes.

Como ter certeza de algo?
Como escolher um caminho a seguir em uma sociedade tão insana quanto a nossa?
Como manter o equilíbrio diante de tanta insensatez?

Mas a vida segue,
E se a metamorfose é permanente,
Também o aprendizado é constante.

Na minha casa, Porto Alegre, dezembro de 2011.

PS: Em momentos de dor intensa ou desespero devemos sempre lembrar que esses estados são passageiros.


Me fortalecer só








Estar só
Embriagada de mim mesma
Será um prenúncio da solidão eterna
à qual a alma talvez esteja predestinada?

Me enfrentar só
Suportar o vazio
Que não é vazio
Porque o preencho com palavras
Sentimentos confusos
ideias delirantes
Um amor inventado
Em meio à solitude destes dias tão insanos.

Me fortalecer só
Permanecer lúcida
Em meio ao caos deste mundo
Que mais parece uma ficção científica dos anos 70.

Sobreviver só
Tentar viver nestes dias
Lembrar que ainda respiro
E que sou capaz de criar
Uma realidade menos atroz
Do que aquela que me é imposta
Pelo mundo dos homens.

Ouvindo e inspirada pelo rap "só" do Kamau,
Em 23 de maio de 2020.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O retorno do tempo presente


De repente faltou luz e a gente se viu no silêncio. Ou permanecíamos com ele, ou conversávamos. Fazia muito tempo que as palavras eram poucas entre a gente. A televisão tava sempre ligada, as mensagens nas redes sociais não paravam de chegar. O dia passava num piscar de olhos e a noite era feita de luzes artificiais.

A gente não sabia, não suportava o silêncio, então eu lhe pedi que me contasse uma história. 
Ela disse: - Hã, como assim contar uma história, uma história real, uma história inventada? 
- Ah tanto faz, eu disse, mas me conta uma história bonita, faz tanto tempo que não ouço uma história bonita.

- Poxa, e agora! Vou ter que pensar. Deixa ver... Tá bom, então vou contar uma história sobre um futuro improvável, no qual haja amor.

"Certo dia acabou a energia elétrica das cidades todas, um colapso inexplicável, parecia que a energia tinha se recusado a circular. As pessoas tiveram que parar, se olhar, se ouvir, se tocar para aquecer os corpos. Os técnicos não conseguiam entender, parecia que as leis da física haviam mudado .

Nos primeiros dias a gente ficou em casa, parecia que voltar a fazer sexo era a melhor alternativa pra passar o tempo. Logo a gente percebeu que precisava interagir com outras pessoas. Em algumas semanas se formaram vários grupos no bairro. Grupos de dança, de teatro, de música, de jogos os mais variados. A gente aproveitava muito as noites de lua cheia, e nas de lua escura se recolhia um pouco ou fazia fogueira. Voltei a me sentir viva, exuberante e íntegra em corpo e espírito. Quando olhei pra atrás não entendi como podíamos viver aquela vida tão vazia de sentido."

Quando ela terminou de falar meu rosto tava tomado de lágrimas, ela percebeu e me deu um beijo longo e delicioso como dos primeiros que trocamos há muito tempo passado.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Luto



Não te esqueças menina
Que a morte está perto
Sim, tens o vinho
E a lua está no céu
Bela, como sempre bela
Porém, a morte está ao redor.

Mas, será que adianta ficar triste?
Lembro de quando era pequena e morreu minha bisavó
Quando voltamos do enterro, já na casa dos meus avós, eu queria ouvir música e dançar
Os adultos não deixaram
Eu não entendi muito bem.

Agora dizem que temos que fazer luto.
Sim, é muito triste o que se passa
Mas eu me pergunto: não é triste a sociedade em que vivemos?
Não é triste que tantos jovens negros morram nas periferias brasileiras diariamente?
Não é triste que as mulheres seja estupradas e assassinadas por serem mulheres?
Não são tristes tantas guerras estúpidas?

A doença é triste,
A morte é triste,
Porém, mais triste é sociedade na qual vivemos a vida inteira.
Mais do que fazer luto,
Precisamos buscar força na pulsão de vida.
Pra que depois dessa doença a vida passe a ter mais valor.

06 de maio de 2020.

PS: um pouco mais de dois meses após esse escrito, a necessidade de luto é imensa, mas a alegria não pode estar olvidada, pois necessitamos de força e saúde pra seguir lutando. Esse foi meu único vinho no isolamento, agora me fazem companhia os chás de camomila e erva-de-são-joão. O número de mortos é muito alto, e quem mais sofre, como sempre, são os pobres, os negros e as populações indígenas. A palavra genocídio tem sido usada pra expressar o que se passa no Brasil neste momento.

domingo, 12 de julho de 2020

Não te cale








Sei que vai ter algumas vezes em que tua voz não será ouvida. 
Ela é bela e suave, 
E, por isso mesmo, alguns julgarão que não tem valor. 
Vai ser difícil.
Tu vai ter consciência do que disse, 
E vai sentir que as palavras não tiveram o efeito que tu queria. 
Em algum momento vão te dizer ou sugerir que a tua forma de falar e se portar está errada, 
Que tens que fazer como fazem os homens. 
Então, tu vai aceitar, vai copiar sua arrogância, sua crítica feroz, 
Porque tu percebe que são essas as palavras que são ouvidas no mundo. 
Talvez um dia tu chegue bem alto usando essas palavras, 
Então, talvez, olhe pra ti mesma com desprezo. 
É melhor, por mais difícil que isso seja, seguir agindo como mulher, falando com tua própria voz. Ninguém vai te dar voz, tu a tens, e ela é linda.

Inverno de 2020.

Dedico esse poema pra Piqui, querida amiga que me trouxe de volta ao mundo da poesia. Me inspirei num poema que ela fez, mas estou falando pra mim mesma, o que está dito, diz respeito à coisas que já vivi.

Fotografia de 13 de outubro de 2023.

Juntas

Para Tatiara Pinto


Eu sempre estarei aqui irmã
Mesmo que nossos caminhos se afastem
E não reconheçamos nossos corpos
Sei que vou te reconhecer pelo olhar sereno,
Sorriso farto.

E se teus olhos estiverem aflitos
Que possas encontrar em mim um alento
E perceber
Que nem tudo está perdido.

Somos filhas de Pachamama
Somos guerreiras
Mulheres fortes e delicadas
Lobas selvagens perdidas no caos urbano

Sei também que posso contar contigo
Como já contei tantas vezes
O universo me trouxe tua presença
E junto com ela o sagrado,
A dança, a música, a poesia,
Simplesmente a beleza.

Que possamos ter saúde e força
Para nadar contra a corrente
E lutar por um mundo mais justo
Em sintonia com a madre tierra e a energia cósmica.

26 de setembro de 2018.

Poema Novo

Quero dizer um poema que não conheço
Que nunca li
Nunca escrevi
Um poema que fale de como podem ser vis os homens
Um poema que cuspa na cara da falsidade
E escancare a baixeza da mentira e da traição

Quero dizer um poema novo
Que fale da raiva
E não somente do amor
Pois a raiva,
Esse sentimento tão desprezado,
Também nos torna fortes
Nos ensina que não podemos suportar tudo sem gritar.

Quero um poema que mude o mundo
Que nos ensine, humanos
A não sermos injustos uns com os outros.
Que torne visível:
A estupidez perversa da sociedade de classes
A ignorância má do racismo
O risível e terrível do sexismo.

Quero dizer um poema que também fale de flores
E de uma nova sociedade que pode surgir
Onde a raiva não será necessária
Pois o amor e a vontade serão livres e verdadeiras.
E a mentira não será dita
Pois corajosos, homens e mulheres não terão necessidade de enganar para obter vantagem.

Quero um poema que fale da vida
Da beleza já quase não percebida
Da natureza da qual somos parte

Este poema também terá que falar do perdão
Pois afinal, toda a mentira, injustiça e traição que há
Não se trata de uma questão individual
Isso, os homens não aprenderam sozinhos
Mas com outros homens e mulheres que assim também o aprenderam.

E sendo assim,
Este poema também falará da cultura
Pra que possamos perceber que nosso modo de vida é só um
Dentre tantos outros possíveis
E que aquilo que, por vezes, consideramos certo
Não é tão certo assim.
Algo que envenena
Que explora
Que busca dominar
Tirar vantagem do trabalho alheio
Não pode ser considerado certo
Simplesmente não é justo.

Setembro de 2018.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Deixar o tempo

No sonho desta noite eu vi o tempo.
Vi as ervas crescerem desordenadamente sobre as construções.
Vi as luzes elétricas se apagarem aos poucos.
Vi a força do apego,
O desejo que tenho de conservar o passado.

Espero ter aprendido que é necessário deixar...
Deixar coisas boas, que não destruam a vida.
Vivemos em um mundo extremamente material,
De consumo e lixo,
Intermediado pela propaganda que programa nossas mentes.

Torna-se fundamental construir um novo mundo,
De amor e bem viver.

São João do Rio Vermelho, 01 de dezembro de 2015.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Antes da lua cheia

Eu sou a brisa que embala o canto sereno na lua cheia,
Sou a chama que não apaga,
Da vida,
Estou viva!
Que cada segundo seja pleno,
Cada instante vivido,
Que tenha vida,
Que seja amor.

Ao dissipar a incerteza,
Busco a beleza constante.
Paz não é possível sem luta,
E força para lutar é o que busco.

Porto Alegre, 03 de junho de 2012.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Repense o Descartes



Repense o Descartes
As coisas não são separadas,
É tudo junto mesmo no Planeta,
E no Universo também!

O pensamento cartesiano é que faz as coisas descartáveis.
É um mundo sem conexão.

Repense o Descartes,
E a ilusão do conhecimento objetivo.
Descartamos comida,
E há gente que não tem o que comer!

Basta de um pensamento tão raso.
Chega de franceses e ingleses do século XVII!
Repense também o Newton e o Locke.

Não me venha com essa de que as terras indígenas não são produtivas,
A sua produtividade está acabando com a nossa vida!
A agricultura indígena produz vida!
O agronegócio produz morte!

E se a questão é o avanço da ciência:
os Tupinambá já estavam bem à frente do tal do Newton.

Você pensa que seu celular é muito moderno?
E de onde veio boa parte dos metais contidos nele?
Do arcaico trabalho escravo infantil moderno!

Vamos transformar essa economia consumista,
Destruidora do Planeta e da Vida!
Basta já dos plásticos,
Basta de indústrias poluidoras.

Não às armas,
Pois é justamente onde se sustenta o Império,
Na guerra sem motivos,
Na destruição e sofrimento dos povos!

Vamos boicotar as indústrias mais lucrativas,
Consumir menos drogas vendidas nas farmácias!
Apoiando a Saúde Pública gratuita,
E o fácil acesso àqueles que necessitam dessa indústria para viver.
Que as pesquisas da área médica e os praticantes da medicina se ocupem mais em mitigar os males humanos,
E menos em ganhar brindes e viagens das indústrias que só visam ao mercado!

Viva aos Povos Indígenas,
Viva aos Quilombolas,
Viva aos camponeses, agricultores agroecológicos, ao MST,
E à todas as que lutam para que da terra se crie vida!

Que a força da vida seja maior que o espírito doentio e destruidor do Capital!

Escrito entre 18 e 21 de outubro de 2016. Com pequenas modificações em 15 de maio de 2024.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Urbano e Rural

Derrubar o Concreto,
Decompor o Asfalto,
Viver no Tempo da Natureza!

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Aroeira

quarta-feira, 16 de março de 2016

Tempo e Tempestade

Deixem-me chorar
Uma tempestade passou por minha casa.
E não foi tempestade,
Nem de vento, nem de gente.
Foi tempestade de humores,
Humanos demais.

Há meses já que sinto a tempestade dentro de mim,
Ela foi me paralisando,
Fazendo a poeira assentar,
As teias de aranha espalharem-se pela casa.

Tem dias que as lágrimas custam a brotar.
Tenho me sentido estranha alguns dias,
Como se fossem feitos só para deixa-los passar,
Deixar que o tempo leve a tempestade embora,
E faça voltar a alegria dos dias calmos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Sem título

Paraíso paralisante,
Sem prantos,
Nem espantos,
Nem espasmos inconstantes.

Importante mesmo é a brisa suave,
E a umidade que cobre o morro.

No balanço do mar,
Seja cinza, azul ou verde,
Está a beleza da vida,
O canto permanente da lua,
Semblante suave,
Leve desatino.

O outono e o cruzeiro do sul

Como gosto de ver-te cruzeiro do sul,
E saber que há mais do que posso ver,
E crer que há mais que esta vida breve,
Que estes dias vãos.

Como gosto de ver-te céu azul escuro,
E saber que o amor testemunha
O quanto ainda tenho que viver.

O verão já se vai,
Chega o outono com sua brisa suave,
Suaves dias,
Menos que vãos.

Desterro, 21 de março de 2015.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

É tempo de luta,
Tempo de floração e poesia!

sexta-feira, 13 de março de 2015

Ser presente

 


Passei muitos dias esperando,
A tua chegada, minha partida,
O teu adeus, minhas tardes vazias.

Passei metade da vida esperando,
Tentando compreender,
Conter e aplacar a dor.

E hoje pergunto a outro quem é,
E ele pergunta quem sou.

Sou apenas pó e esperança.
Não peguei a estrada por falta de coragem,
E coragem também me falta
Para confessar que nada sou.

E o querer, onde importa?
Quem quero ser?
Alcoólica ou desperta ao amanhecer?

Porto Alegre, 23/03/2012.
Fotografia em 25/06/2023 da Aloe Saponaria que ganhei da Mônica.
 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Reflexões de apartamento



A vida tem o sentido que se dá!
Nesta cidade tão grande,
Tão deserta e tão vazia,
Me consolam apenas o canto dos pássaros e o latido dos cães,
talvez presos em apartamentos (celas luxuosas [ou não]), como eu.

Podia esquecer todas as músicas que me deixam feliz,
Deitar para o chão toda a poesia.
E de que valeria esse abandono?
Sem isso o mundo fica mais cinza ainda!

Eu quero que pare agora o movimento das fábricas!
Já existem coisas demais neste mundo.
Chega, basta de acumular tanto,
E produzir tanto lixo.

Lembro da literatura que retrata o século XIX.
As pessoas tinham poucos roupas.

Agora temos um guarda-roupa atulhado,
Cheio de trapos que devem dizer quem somos.
Enquanto alguns muitos passam frio.

Temos dificuldade de dar,
Dar sem esperar algo em troca,
Quando damos e não recebemos nos sentimos frustrados,
Pelo menos é o que vejo em muitas situações.

Queria ter a esperança que demonstrava Marcel Mauss no começo do século XX.
Esse antropólogo francês acreditava que o movimento de trabalhadores se fortaleceria,
Porque as as pessoas se dariam conta que estavam vendendo algo mais do que sua força de trabalho,
Estavam vendendo seu tempo de vida. (mas é verdade que ele também acreditava na condescendência da burguesia).

As coisas precisam circular de outra forma que não a comercial.
Caso contrário continuaremos nos matando de trabalhar para encher os bolsos dos capitalistas,
E consumir coisas que vão virar lixo.

Concordo com o pessoal do M.A.U.S.S (Movimento anti-utilitarista nas ciências sociais), se é que da pouca leitura os entendi bem.
É preciso um retorno à dádiva.

Mas também é preciso uma enorme mudança na mentalidade,
para que dar não seja sinônimo de poder,
E para que receber não seja sintoma de inferioridade.
É, é um longo caminho.

Porto Alegre, 20 de julho de 2012.

A fotografia é do meu apartamento feita pela Elisa Gottfried.

Sol poente

domingo, 21 de setembro de 2014

De passagem

Dentro em pouco já me vou,
Deste mundo
E de outros mundos.

Aprendi a caminhar,
Deixando um rastro em cada canto.

Hoje, não quero ter tanto,
Para não deixar tanto.

Tanto de mim,
E tanto lixo.

Pois muito do que a mim serviu,
Não servirá a outros.